DOI:
https://doi.org/10.14483/23464712.21838Publicado:
2025-12-10A busca por sentidos presentes em colagens inspiradas em Bordados Arpilleras* elaborados por graduandos do Deserto do Namibe - Angola
The search for meaning present in collages inspired by Arpilera Embroidery* created by graduate students from the Namib Desert - Angola
La búsqueda de significados presente en el Bordado De Arpilleras elaborado por graduados del Desierto de Namibe – Angola
Palabras clave:
Discurso, Processo educativo, Temática ambiental, Educação ambiental (pt).Palabras clave:
Speech, Educational process, Environmental theme, Environmental education (en).Palabras clave:
Discurso, Proceso educativo, Tema ambiental, Educación ambiental (es).Descargas
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Recibido: 12 de febrero de 2025; Aceptado: 10 de noviembre de 2025
Resumo
O presente relato de experiência nasce como resultado de um processo educativo envolvendo a Educação Ambiental Critica e Decolonial realizado no âmbito do “I Seminário Socioambiental Angola-Brasil: Educação, Meio Ambiente, Tecnologias e Saúde” no ano de 2023, na Universidade do Namibe/Angola que contou com a participação de estudantes de diversos cursos de graduação, na província do Namibe, na capital, Moçâmedes, ao sul do território angolano. A construção das colagens com os graduandos foram inspiradas nos bordados chilenos das Arpilleras que teve como objetivo compreender possíveis sentidos relacionados à temática ambiental e Educação Ambiental presentes nas produções. Para a análise das colagens, nos embasamos na abordagem de pesquisa qualitativa. A partir desse processo, constatou-se que os graduandos das diversas localidades em que foi realizado o processo educativo, estabelecem uma complexa relação sociedade-natureza que resulta em diversos problemas ocasionados no ambiente e que necessitam de uma formação crítica para o seu enfrentamento coletivo. Essa relação promove a proliferação de doenças que ocasionam problemas de saúde como malária, febre amarela, cólera entre outras e, também, impactos como desmatamento e queimadas que intensificam a desertificação, conflitos e injustiças socioambientais. Por fim, salienta-se a necessidade da promoção de formação dos docentes, discentes e comunidade para o desenvolvimento da Extensão Universitária, como um possível caminho para que essa relação seja (re)significada, de modo que fique evidente a relação de interdependência entre seres vivos e não-vivos e que a partir de uma construção coletiva novos horizontes e possibilidades sejam possíveis nesse território profundamente marcado pelas Mudanças Climáticas.
Palavras-chave
Discurso, Processo educativo, Temática ambiental, Educação ambiental.Abstract
This experience report stems from an educational process involving Critical and Decolonial Environmental Education, conducted within the framework of the “I Angola-Brazil Socio-environmental Seminar: Education, Environment, Technologies and Health” in 2023 at the University of Namibe/Angola. This seminar involved students from various undergraduate courses in the province of Namibe, specifically in the capital, Moçâmedes, in southern Angola. The creation of collages by the undergraduate students was inspired by Chilean Arpilleras embroidery, aiming to understand possible meanings related to environmental themes and Environmental Education present in the productions. For the analysis of the collages, we relied on a qualitative research approach. From this process, it was found that graduates from the various locations where the educational process was carried out establish a complex society-nature relationship that results in several environmental problems and that require critical training for their collective confrontation. This relationship promotes the proliferation of diseases that cause health problems such as malaria, yellow fever, cholera, among others, and also impacts such as deforestation and fires that intensify desertification, conflicts, and socio-environmental injustices. Finally, the need to promote training for teachers, students, and the community for the development of University Extension is highlighted, as a way for this relationship to be (re)signified, so that the interdependence between living and non-living beings becomes evident, and that, through a collective construction, new horizons and possibilities become possible in this territory profoundly marked by Climate Change.
Keywords
Speech, Educational process, Environmental theme, Environmental education.Resumen
Este informe de experiencia surge de un proceso educativo sobre Educación AmbientalCrítica y Decolonial, realizado en el marco del “I Seminario Socioambiental Angola-Brasil: Educación, Medio Ambiente, Tecnologías y Salud” en 2023 en la Universidad deNamibe, Angola. En este seminario participaron estudiantes de diversas carreras de laprovincia de Namibe, específicamente de la capital, Moçâmedes, en el sur de Angola.La creación de collages por parte de los estudiantes se inspiró en el bordado chilenode arpilleras, con el objetivo de comprender los posibles significados relacionadoscon temas ambientales y la Educación Ambiental presentes en las obras. Para elanálisis de los collages, se empleó un enfoque de investigación cualitativa. De esteproceso se constató que los egresados de las distintas localidades donde se impartió laformación establecen una compleja relación sociedad-naturaleza que genera diversos problemas ambientales y que exige una formación integral para abordaje colectivo.Esta relación fomenta la proliferación de enfermedades que causan problemas desalud como la malaria, fiebre amarilla y el cólera, entre otras, así como impactoscomo la deforestación y los incendios, que intensifican la desertificación, conflictos ylas injusticias socioambientales. Finalmente, se destaca la necesidad de promover laformación de docentes, estudiantes y la comunidad para el desarrollo de la ExtensiónUniversitaria, como vía para (re)significar esta relación, de modo que se evidenciela interdependencia entre los seres vivos y los elementos, y que, mediante unaconstrucción colectiva, se abran nuevos horizontes y posibilidades en este territorioprofundamente marcado por el cambio climático.
Palabras clave
Discurso, Proceso educativo, Tema ambiental, Educación ambiental.1. Introdução
Ao longo dos anos têm se observado que as ações antrópicas provocaram problemas ocasionados ao/ no ambiente e que esses problemas resultaram em uma crise ambiental que gerou um rompimento entre sociedade-natureza, tal crise ocasiona consequências como alteração dos ciclos biológicos, perda da biodiversidade, poluição do ar e da água, envenenamento e infertilidade do solo, acumulo de resíduos, deslocamento forçado de grupos sociais historicamente marginalizados e por vezes silenciados, perda de meios de subsistência, aumento de conflitos e injustiças socioambientais.
Sendo que as nações do sul global são as mais afetadas e, nelas, crianças, mulheres, negras, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, camponeses e trabalhadores rurais são os que mais sofrem (Bombardi, 2024, p.13).
Tal crise ambiental é vista por Leff (2001) como uma crise própria do nosso tempo e é a demonstração de uma racionalidade econômica que se distancia de uma compreensão sobre a natureza e os seus ciclos, que coloca o interesse econômico acima de todas as ações e inclusive da permanência da vida, uma crise civilizatória como coloca o autor supracitado.
Para Krenak (2020, p.44) “nós podemos habitar esse planeta, mas deverá ser de outro jeito”. Trata-se do reconhecimento e envolvimento com modos de vida outros com seus costumes, crenças, relação com a natureza e seus entes.
Para além desse olhar do capitalismo amplamente questionado e enfrentado no campo da Educação Ambiental Crítica, trazemos nesse relato a compreensão da necessidade de um pensar acerca da decolonialidade, uma vez que nesse relato de experiência estamos imersos num contexto que foi extremamente marcado pelo colonialismo - África.
Além disso, o campo da Educação Ambiental Crítica, sendo um campo do conhecimento multifacetado dialoga com as premissas que envolvem o campo da decolonialidade, mencionando, em seus estudos, condições de expropriação e determinantes sociais que influenciam tais relações.
Para tanto, partimos do pressuposto que esta aproximação entre o campo teórico da Decolonialidade e o campo da Educação Ambiental Crítica, promove a construção de ações mais justas e igualitárias no que diz respeito à questão socioambiental. Uma vez que, a decolonialidade reconhece a diversidade de saberes, resiste ao pensamento dominante (eurocêntrico), enfrenta toda e qualquer forma de exclusão que tenha por origem a situação colonial e suas consequências históricas, reconhece que o fim do colonialismo não significou o fim das relações desiguais de poder e que refletem nas assimetrias que vivemos nos dias de hoje e propõe um mundo onde caibam vários mundos (Quijano, 2005; Mignolo, 2007; Wlash, 2009; Kassiadou, 2018; Krenak, 2020, 2022; Ferdinand, 2022).
A oficina se baseou na utilização de colagens com inspiração de bordados Arpilleras que se tornaram conhecidas por meio do trabalho de mulheres chilenas que utilizaram essa técnica para denunciar as atrocidades cometidas no contexto da ditadura militar promovida por Pinochet, segundo Busquets (2020). A Figura 1 mostra um exemplo de Arpilleras exposto no acervo do Museu Histórico Nacional, em Santiago, no Chile.
Assim, as questões que orientaram essa experiência podem ser definidas da seguinte forma: quais são os sentidos evidenciados nas Arpilleras que demonstram questões socioambientais vividas pelos indivíduos que a produziram? Quais possibilidades de ações de Educação Ambiental Crítica e Decolonial podemos mobilizar por meio de sentidos representados nas Arpilleras?
Figura 1.
: Bordado arpillera “Arpillera 11 de septiembre de 1984”.
O caráter de reinvidicações de cunho político presentes nos bordados Arpilleras nos motivou a utilizar uma adaptação desse tipo de bordado para possibilitar que estudantes de graduação de um contexto permeado por inúmeras questões sociais, econômicas, ambientais, pudessem utilizar da criatividade para nos dizer seus sentidos sobre o seu lugar e resistência por meio das suas produções.
Foi na busca de uma construção de sentidos em coletividade propondo um mundo que caibam várias vozes e olhares que nos motivamos a utilizar uma adaptação inspirada no bordado das Arpilleras chilenas para possibilitar que estudantes de graduação de um contexto permeado por inúmeras questões sociais, econômicas, políticas e ambientais pudessem utilizar da criatividade para construir sentidos partilhados sobre o seu lugar e promover a resistência por meio das suas produções - discursos que após a construção foram compartilhados entre os participantes da oficina numa arena pública, a sala de aula.
As Arpilleras nesse contexto tornaram-se uma ferramenta que amplificou as vozes, materializou as percepções, lutas, impactos socioambientais e esperanças e, consequentemente, promoveu o enfrentamento ao atual modelo de relação sociedade-natureza.
2. Contexto de desenvolvimento
No local em que essa pesquisa se consolidou, na província do Namibe (Figura 2), ao sul de Angola, é notável que essa relação sociedade-natureza está contribuindo para um cenário propício para a proliferação de doenças, degradação do meio natural e comprometimento da qualidade de vida da população. Assim, como promovendo a inviabilidade de permanência no seu território.
Figura 2.
: Localização da província do Namibe. Organização: Miotto, 2025.
A República de Angola, mais conhecida como Angola, é um dos 54 países do continente africano. O país localiza-se na costa oeste da África, na porção sul, na região também conhecida como África Subsaariana e faz parte da África Austral. Possui seu litoral banhado pelo Oceano Atlântico (a oeste) e faz fronteiras com os territórios da Namíbia (ao sul), Zâmbia a leste, e a República Democrática do Congo no nordeste e norte. Possui uma área de 1.247.000 km², segundo dados da ONU.
No que diz respeito às características físicas, a cidade de Moçâmedes, situada ao sul, é afetada pelas condições climáticas da região desértica do país vizinho ao sul de Angola, a Namíbia - o deserto mais antigo do planeta.
Por ser uma cidade litorânea, possui a economia baseada nas atividades da pesca e apresenta uma população de 314.061 habitantes segundo as informações do último Censo Demográfico de Angola, de 2014. sendo a cidade mais populosa da província do Namibe.
De acordo com a classificação climática de Köppen, Moçâmedes, possui a classificação BWh (clima árido quente) e segundo as informações do Portal Climate Data, possui uma quantidade pluviométrica anual menor que 120 mm por ano. A esse fato pode-se concluir a sua proximidade com o Deserto do Namibe, que se estende pela região sul de Angola, também em seu país vizinho Namíbia, chegando até a África do Sul. A questão hídrica é essencial, pois a maioria dos rios nessa província são intermitentes,também, conhecidos como rios secos com exceção do rio Cunene, segundo Campos (2016) citado por Kanusse (2020).
O Deserto do Namibe possui uma beleza natural rara, a Welwitschia Mirabilis sp. uma planta endêmica do deserto da Namibe no sul de Angola e Namíbia que a cada dia encontra-se ameaçada pelo atual modelo de relação sociedade-natureza.
A língua mais falada é o português, no entanto, a região apresenta povos nativos como os Cuvalis (Mukubais), os Himbas, os Nhanekas Humbi e os Kimbaris preservando suas culturas, tradições, hábitos e costumes e a língua através da música, dança e pintura (Kanusse, 2020). Cabe aqui ressaltar que tais povos e, consequentemente, suas línguas encontram-se em risco em relação as ações antrópicas e os efeitos das mudanças climáticas que tem interferido nos seus modos de vida e inviabilizado a sua permanência no território.
A poluição dos recursos hídricos pelo descarte de resíduos sólidos sem o devido manejo, a falta de saneamento básico, o desmatamento para a produção do carvão vegetal são exemplos que tornam esse problema ainda maior, uma vez que os rios são escassos na maior parte do ano gerando insegurança hídrica. Outras situações são elencadas por Kanusse (2020, p.18), a província:
[...] vem sofrendo com a seca que assola a região sul do país, sobretudo no interior da província. Este fenômeno tem causado vários prejuízos, tais como: sede, morte do gado, improdutividade nas atividades agrícolas, erosão desértica, entre outros. Em consequência disso, tem ocorrido o fenômeno da desertificação. (Kanusse, 2020).
Limones et al., (2020) mencionam que as chuvas escassas e cada vez mais imprevisíveis tornam o Namibe propenso a longas secas e intensa escassez de água, o que está afetando gravemente a subsistência das comunidades locais. De acordo com a UNICEF (2019, s/p) [1] ,
Todos os dias, a população gasta horas para acessar a água para beber, cozinhar e dar aos animais. Na maioria dos casos, cabe às crianças, às mulheres e aos idosos a tarefa de conseguir água para a família e para os animais menores. Como o gado é a principal riqueza e símbolo religioso em alguns grupos tradicionais dessa região, os homens partem com os filhos menores durante o período de seca levando os filhos maiores e o gado em busca de água e bons pastos num fenômeno conhecido como transumância [2] , retirando os filhos das escolas. Ou seja, para as crianças desse território a presença na sala de aula obedece à sede dos animais. Os seus sonhos e de outras milhares de crianças estão ameaçados pela seca.
Nesse território a água é o bem mais precioso e em algumas localidades já se tornou motivo de conflito violento. Essas situações nos levam a reflexão sobre as contribuições que as ações de Educação Ambiental Crítica por meio da Extensão Universitária, podem trazer para mobilizar a sociedade que vive nesse contexto no sentido de (re)significar a sua relação com o meio, ou seja, com todos os seres vivos e não-vivos e o entendimento de interdependência. Além disso, esse relato de experiência é uma busca pelo reconhecimento de que precisamos avançar no que estamos compreendendo acerca da justiça socioambiental e climática.
Bem como nos coloca a frase atribuída a Dom Tomás Balduíno “direitos humanos não se pede de joelhos, mas se exige de pé”, significa que os direitos humanos são uma conquista inerente à dignidade humana e não um favor que se implora. Nesse sentido, destacamos a importância da reflexão e criticidade diante da realidade, a proposta que será descrita no item a seguir foi desenvolvida por meio da oficina “Construção de Sociedades Sustentáveis por meio da Educação Ambiental Crítica”, que fez parte das ações do I Seminário Socioambiental Angola-Brasil: Educação, Meio Ambiente, Tecnologias e Saúde, evento presidido por uma das autoras desse relato de experiência que já se encontra na quarta edição em um movimento de alternância entre ambos os países dando vida aos Acordos de Cooperação Internacionais assinados por instituições brasileiras e angolanas que compõem essa parceria transatlântica.
Figura 3.: Desenvolvimento da oficina “Construção de Sociedades Sustentáveis por meio da Educação Ambiental Crítica”, quefez parte das ações do I Seminário Socioambiental Angola-Brasil: Educação, Meio Ambiente, Tecnologias e Saúde.
Sendo assim, a partir da utilização de uma adaptação dos bordados de Arpilleras buscamos compreender quais são os sentidos encontrados nas colagens realizadas pelos participantes da oficina no que diz respeito às questões socioambientais desse território.
3. Percurso metodológico
A oficina mencionada, foi desenvolvida com os 61 graduandos que nesse momento estavam participando do I Seminário Socioambiental Angola-Brasil: Educação, Meio Ambiente, Tecnologias e Saúde na Universidade do Namibe. E foi assim que em maio de 2023, graduandos presentes no seminário em Moçâmedes construíram coletivamente sentidos por meio de colagens inspiradas na técnica de bordados denominada Arpilleras (Figura 3).
A escolha da abordagem metodológica apropriada foi muito importante, pois ela está relacionada a vários fatores como os objetivos traçados, o método escolhido e a validação dos dados obtidos, de acordo com Pitanga (2020). Ela se apresenta como uma proposta que não se configura como um método estruturado de maneira rígida e segundo Godoy (1995, p. 21) “ela permite que a imaginação e a criatividade levem os investigadores a propor trabalhos que explorem novos enfoques”.
As escolhas teórico-metodológicas deste trabalho partem da premissa levantada por Freire (2018) de que a contextualização das propostas educativas à realidade socioambiental local facilita a promoção do aprendizado e promove a transformação social. Refletindo sobre esse pressuposto e a necessidade de promover pontes entre os diferentes saberes, optou-se por aplicar uma ferramenta participativa que partisse dos saberes locais e que a partir destes, pudesse dialogar como os demais saberes promovendo ações futuras de extensão e pesquisa em cooperação internacional. Para tanto, foi aplicada a abordagem de pesquisa qualitativa (Denzin; Lincoln, 2006) e a construção de Arpilleras adaptadas para o contexto em questão.
Para Amaral (2018, p. 43) essa abordagem possibilita “vivenciar, pela interpretação, os significados possíveis estabelecidos e, no diálogo com o contexto, mobilizar possíveis sentidos passíveis de serem construídos em um processo dialógico”.
A metodologia de análise escolhida está de acordo com os estudos de Mikhail Bakhtin (1895-1975) e o Círculo. Em suas obras, esses autores compreendem a investigação das Ciências Humanas por meio de diferentes perspectivas.
Segundo Amaral (2019, p. 170), os estudos de Bakhtin e o Círculo “envolvem compreensão e não explicação pontual de dados empíricos, diálogo e não monólogo, interpretação dos significados e a mobilização de sentidos”.
Segundo Bakhtin, “a investigação se torna interrogação e conversa, isto é, diálogo. Nós não perguntamos à natureza e ela não nos responde. Colocamos as perguntas para nós mesmos [...]” em um movimento dialógico, relacionando-as com o contexto (Bakhtin, 2011, p. 319). Dessa forma, para esses autores, o sentido que é representado não deve ser interpretado fora do contexto social e histórico em que está inserido.
Assim, concordamos que buscar a compreensão do sentido de maneira aprofundada representa compreender o seu significado de acordo com o que Amaral (2018, p. 54) aponta “o sentido é algo que se constitui em um determinado contexto, refletindo e refratando questões políticas, econômicas, históricas e sociais”.
Sendo assim, na oficina oferecida na Universidade do Namibe, realizada com a participação de 61 graduandos solicitou-se que em grupos evidenciassem por meio de colagens quais são as suas inquietações, compreensões, histórias e reflexões sobre a temática ambiental em seus contextos. Eles foram orientados a produzir as colagens a partir da inspiração dos bordados Arpilleras.
Os sentidos compreendidos nas Arpilleras servirão como dados que serão utilizados posteriormente no
desenvolvimento de ações de pesquisas e práticas de Educação Ambiental Crítica e Decolonial por meio da extensão universitária. Assim como, a relação por meio da cooperação internacional (Brasil - Angola) com um projeto já realizado por uma dos autores deste artigo na localidade Giraúl de Baixo que fica a 17 km da cidade de Moçâmedes. A população, na composição de 568 membros até 2017, vive de agricultura de subsistência, utilizando instrumentos rudimentares tradicionais como, por exemplo, enxadas, catanas, charruas, dependente das águas das chuvas.
Destacamos que, em todo esse processo, o esforço foi, sempre, na busca de uma relação dialógica com os discursos materializados por meio das colagens e o contexto, procurando caminhar no sentido de compreensão dos significados e mobilização de possíveis sentidos passíveis de serem construídos.
4. Resultados e Discussão
Considerando que as Arpilleras são a base de inspiração dos trabalhos realizados na oficina, é importante ressaltar que há diferenças fundamentais entre os bordados das Arpilleras chilenas de 1980 e as colagens produzidas na oficina. A primeira diferença é o material utilizado, as Arpilleras chilenas são feitas com agulha, tecidos e fios, enquanto que as Arpilleras elaboradas na oficina foram produzidas na base ráfia (reutilizada de atividades da agricultura), papel do tipo EVA, tesouras, canetas coloridas e cola quente por uma questão de tempo que a oficina não possibilitaria tal elaboração por meio do bordado. Sendo assim, as Arpilleras chilenas são utilizadas como inspiração de construção de resistência ao modelo de relação sociedade-natureza.
A segunda diferença é o contexto histórico e social das produções. Porém, nesses dois contextos podemos visualizar a produção em Arpilleras como símbolo de resistência dos sujeitos que a produzem. Isso porque no contexto chileno, Pavão (2022, p.14) esclarece:
Figura 4.
: Imagens dos municípios de Sacomar e Moçâmedes na Figura 4. Casas em meio ao Deserto do Namibe (4A) e Ecopontos nos quais os resíduos são destinados (4 B).
As arpilleristas, mulheres artistas que produziram bordados como o utilizado para introduzir este prólogo, encontraram na arte um instrumento catártico para lidar com o assassinato e o desaparecimento forçado de maridos e filhos pela ação da ditadura militar chilena, ao mesmo tempo em que a elas serviram como expressão política de denúncia e resistência. (Pavão, 2022)
Já o contexto territorial onde foi desenvolvida essa oficina trata-se do Deserto do Namibe, como vemos na Figura 4.Nesse local a erosão desértica está tomando conta dos vilarejos e as pessoas que ali residem continuam resistindo e buscando meios de permanência no seu território (Figura 4 – A) e no que diz respeito aos resíduos no município há inúmeros “ecopontos” (Figura 4 – B) que são locais destinados a receber resíduos sólidos da comunidade, uma vez que os serviços de saneamento básico e coleta de lixo são quase inexistentes.
Vejam a Figura 4A apresenta um contexto de desertificação que está sendo agudizado pelos efeitos das mudanças climáticas, nesse território não existe nenhuma proteção e/ou cortina de árvores, o que tem provocado a erosão desértica, ampliando a dificuldade de acesso a água, inviabilizando o plantio para subsistência e a permanência dos moradores nesse território.
A Figura 4B, diz respeito a uma situação do cotidiano dos habitantes da cidade de Moçâmedes. Essa problemática do descarte de resíduos nos ecopontos dificultam a vida dessa população, gerando problemas de doenças como o paludismo e febre amarela já que esses resíduos que devem ser destinados pelos próprios moradores até esses locais “lixão a céu aberto” próximos as residências, acabam atraindo diversos vetores de doenças que se proliferam em água parada nos resíduos dispostos incorretamente. Assim, buscou-se instigar os participantes da oficina para que retratassem em suas colagens as suas inquietações em relação ao meio em que vivem. Abaixo, na Figura 5 evidenciamos alguns resultados das produções da Arpilleras construídas em coletividade em cada grupo. Vejamos:
Na Figura 5 é possível verificar a problemática expressa pelos graduandos relacionada a temática de poluição dos recursos hídricos que acabam por afetar a vida aquática e contaminando os afluentes que são escassos para o acesso a água (5A e 5B). Na segunda Figura 5C observamos um ser humano representado junto aos resíduos que estão dispostos de maneira inadequada a céu aberto, demonstrando que algumas pessoas muitas vezes convivem lado a lado com os resíduos.
Sobre a questão dos resíduos sólidos, é preciso entender que, de acordo com Amaral (2018, p.206)
Figura 5.
: Arpilleras produzidas na oficina que evidenciam a questão dos resíduos.
[...] quando falamos em resíduos, devemos compreender que não basta tirá-los do alcance dos nossos olhos ou simplesmente destiná-los para uma lixeira seletiva, pois alguém, ainda, estará sofrendo as consequências de ter esses resíduos nas proximidades de sua residência (Amaral, 2018).
O descarte de resíduos sólidos em locais inapropriados e sem o devido tratamento contribuem para um quadro de injustiça ambiental, que resulta em diversos problemas para a comunidade local. E nesse contexto, onde a coleta seletiva é inexistente precisamos exigir que diferentes segmentos da sociedade civil, como governo local e empresas se responsabilizem pelos resíduos produzidos e não somente cobrem e transmitam essa responsabilidade ao sujeito que se quer tem condições para promover tal solução.
Ou seja, não são problemáticas simples, pois envolvem o modo de relação de toda uma comunidade com o meio em que vivem e a responsabilidade de vários segmentos da sociedade: empresários, poder público, moradores locais, entre outros. Não cabe responsabilizar apenas a população dessas comunidades por essas questões, pois além das ações das pessoas, o poder público, também, precisa compreender e buscar caminhos para solucionar tais problemáticas e se responsabilizar pela destinação desses resíduos num movimento de governança participativa.
Outra questão socioambiental demonstrada nas produções foi o processo de erosão desértica que tem intensificado a desertificação e que foi representada, inclusive, com a areia coletada no entorno da universidade e colada nas Arpilleras (Figura 6A). Esse processo é agudizado por ações antrópicas como o desmatamento para produção de carvão e as queimadas (Figura 6B). Essas problemáticas, associadas ao clima árido e com poucos recursos hídricos, tornam a qualidade de vida dessa população bastante comprometida por doenças de ordem respiratória e acesso a água, o bem mais precioso desse território que em algumas localidades já se tornou motivo de conflito.
Os sentidos construídos em coletividade por meio dessa ferramenta participativa apresentam problemas ocasionados no/ao ambiente pelos graduandos. Nessas Arpilleras produzidas na Figura 6A, os sentidos produzidos nos levam a refletir acerca da problemática da desertificação e queimadas, casas representadas num ambiente árido sem arborização e acesso a água, nesse local o vilarejo sofre com a erosão desértica um processo que está inviabilizando a permanência da manutenção da vida nesse lugar.
Mas, a questão não se trata de mudança de local de vida se a raiz dessa problemática não for repensada e enfrentada por toda comunidade desse território, até mesmo porque o território apresenta questões relacionadas a cultura, ancestralidade e modos de vida enraizados pelos moradores. Aqui ressaltamos que não se trata apenas de um enfrentamento empreendido pela comunidade que sofre as consequências do atual modelo de relação sociedade-natureza, mas, sim, um enfrentamento coletivo que traga para esse diálogo representantes de todos os segmentos da sociedade. Uma ação política coletiva em prol da vida.
Figura 6.
: Arpilleras produzidas na oficina que evidenciam a questão da erosão desértica, desmatamento e queimadas.
Dessa forma, a partir do contato com a comunidade, foi percebido problemáticas socioambientais, das quais citamos: a) Necessidade de ampliação da formação docente e discente para o desenvolvimento da Extensão Universitária; c) Formação em Educação Ambiental Critica e Decolonial que promova resiliência e o enfrentamento às problemáticas socioambientais e d) Fortalecimento de ações que busquem o desenvolvimento territorial e a transferência de tecnologias baseadas em soluções da natureza por meio da Cooperação Internacional.
Como uma possibilidade de contribuir observamos que um projeto extensionista está sendo desenvolvido na escola dessa comunidade, Giraúl de Baixo em Moçâmedes, por essa Instituição de Ensino Superior para a sensibilização sobre a necessidade de proteger-se o ambiente da erosão desértica, bem como, trabalhar com os estudantes. Para tanto, iniciamos uma cooperação internacional por meio da Rede Internacional de Extensão Universitária (RIEU) que irá levar formação e transferência de tecnologias através da Educação Ambiental Crítica e Decolonial para esse contexto.
Contudo, observamos que existe a necessidade de formação continuada e inicial tanto no que diz respeito sobre a formação no modo de desenvolvimento da Extensão Universitária que não existe um caminho ainda delineado e procedimentos metodológicos definidos, bem como formação acerca dos processos educativos de Educação Ambiental Crítica e Decolonial que sejam de fato efetivos e transformadores da realidade deste território.
5. Considerações finais
As Arpilleras se constituíram como “instrumento político, extensão do corpo e da memória de mulheres violentadas” de acordo com Pavão (2022, p. 21). Dessa forma, é uma técnica que traz consigo um caráter político, de reivindicação, inquietação, anseios, incertezas e resistência.
Notamos que suas produções nos disseram muito sobre uma relação sociedade-natureza que precisa ser transformada de modo que seja respeitosa não só com o meio, mas com as comunidades que vivem nesses contextos.
A Educação Ambiental Critica e Decolonial se configura como um campo que pode trazer a transformação social e emancipação se realizada com propósitos e intenções que busquem uma relação mais harmoniosa com a nossa casa comum, o Planeta Terra.
Assim, propostas de ações coletivas por meio da participação das comunidades, universidades, poder público, empresas e ONG’s são caminhos coletivos possíveis a serem abertos e percorridos no deserto do Namibe na busca de uma governança participativa por meio do desenvolvimento da Extensão Universitária que promova uma Educação Ambiental Crítica e Decolonial.
6. Agradecimentos
Agradecemos todos os envolvidos na promoção do I Seminário Socioambiental Angola-Brasil: Educação, Meio Ambiente, Tecnologias e Saúde, por toda dedicação, colaboração para que esse evento ocorresse com êxito. Também agradecemos às instituições parceiras, UNIMBE e o Programa Sala Verde nas Ondas do rio Iguaçu, a RIEU (Rede Internacional de Extensão Universitária) e o GPEAT (Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental: uma construção transatlântica).
Referencias
Notas
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